
Uma "pequena minoria" de 20% da população portuguesa fica, a partir de hoje, legalmente conduzida à condição de pária. Com o estatuto de contribuinte especial, já que a nova Lei do Tabaco é cobarde a ponto de não prescindir do dinheiro das taxas pagas pelos fumadores, a cada maço.
Entende o legislador que o fumo prejudica gravemente a saúde, mas não deixa de lamber os beiços com o dinheiro pago em impostos por quem fuma. Na prática, os sanitaristas entendem que estão provados os malefícios do tabaco, mas não se arriscam a pura e simplesmente proibi-lo e ilegalizá-lo de vez. A isto chama-se, na minha terra, hipocrisia grosseira.
No entanto, as vantagens da nova lei para alguém como eu, um dos fumadores que não quer nem vai deixar de fumar, são óbvias: uma vida cada vez mais centrada em casa, tanto no campo do trabalho (benditos acessos internet ao escritório e bendita a posição de patrão...) como na vida social, com muito mais jantares e copos na humilde e muito privada "casa dos espelhos", onde a PIDE sanitária não entra.
A modernidade trata do resto: cada vez menos é preciso entrar em estabelecimentos de todo o tipo, desde os restaurantes aos centros comerciais, passando pelos cinemas, porque tudo se pode comprar online e mandar trazer a casa. Como em tudo na vida, é apenas uma questão de ajustar hábitos. E - claro - deixar de frequentar e gastar o nosso dinheiro em todos os sítios cujos proprietários não lutaram a tempo para continuarmos a ser acolhidos.
P.S. - É a esse título ridícula, por tardia e acobardada, a petição que algumas discotecas deitaram esta noite à circulação, tentando seduzir clientes para que assinem a favor de mudanças à legislação, permitindo aos donos de estabelecimentos de diversão nocturna escolher se querem ou não ser espaços para fumadores. A nova lei, agora em vigor, esteve meses infindos a escrutínio prévio - e houve todo o tempo para protestar contra ela e fazer por alterá-la. Assim houvesse "tomates".
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