Vidas, palavras, ideias e coisas - de dias e de noites - em ambiente (geralmente) citadino
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sexta-feira, fevereiro 6

Estados gripais



Pachos na testa
Terço na mão
Uma botija
Chá de limão
Zaragatoas
Vinho com mel
Três aspirinas
Creme na pele
Dói-me a garganta
Chamo a mulher
Ai Lurdes, Lurdes
Que vou morrer
Mede-me a febre
Olha-me a goela
Cala os miúdos
Fecha a janela
Não quero canja
Nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes
Não vales nada
Se tu sonhasses
Como me sinto
Já vejo a morte
Nunca te minto
Já vejo o inferno
Chamas diabos
Anjos estranhos
Cornos e rabos
Tigres sem listas
Bodes de tranças
Choros de corujas
Risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes
Que foi aquilo
Não é a chuva
No meu postigo
Ai Lurdes, Lurdes
Fica comigo
Não é o vento
A cirandar
Nem são as vozes
Que vêm do mar
Não é o pingo
De uma torneira
Põe-me a santinha
À cabeceira
Compõe-me a colcha
Fala ao prior
Pousa o Jesus
No cobertor
Chama o doutor
Passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes
Nem dás por nada
Faz-me tisanas
E pão de ló
Não te levantes
Que fico só
Aqui sozinho
A apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes
Que vou morrer


"Todos os homens são maricas quando estão com gripe"
António Lobo Antunes

quarta-feira, janeiro 28

Um recado com Amor


terça-feira, março 25

Poesia, Pessoa e Utópicos



O Grupo de Jograis “U…Tópico” leva a efeito, nesta terça-feira, 25 de Março, a partir das 19h30, mais um jantar poético no Café Império (à Av. Almirante Reis), espaço histórico da boémia lisboeta que voltou a acolher noites de cultura e tertúlia.

O recital terá início pelas 21h00, precedido de jantar que começará a ser servido pelas 19h30. Para esta noite especial, o Grupo de Jograis “U…Tópico” preparou um programa dedicado a Fernando Pessoa e seus heterónimos, com cerca de uma vintena de poemas ditos a quatro vozes.

Fundado em Novembro de 1998, o Grupo de Jograis "U...Tópico" é actualmente constituído por quatro elementos: Maria de Fátima, Maria Luísa, António Freire e Manuel Diogo. O seu objectivo principal é promover, divulgar e mostrar os poetas e prosadores de Portugal e da Lusofonia e, consequentemente, defender a Língua Portuguesa.
No reportório da formação, figuram cerca de 300 autores, envolvendo mais de 1500 textos (perto de 200 prosas – entre contos, crónicas, excertos de romances - e o restante em poesia) trabalhados para as vozes do grupo.
Ao longo dos últimos anos, o Grupo de Jograis "U...Tópico" promoveu já inúmeros recitais em diversas Instituições (Sociedades, Associações, Casas Regionais, Bibliotecas, Clubes, Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais, Livrarias, Grupos Culturais, Tertúlias de Poesia, Teatros, Cafés Literários etc.), e dezenas de Escolas Básicas e Secundárias. Teve também recitais gravados para a RTP2, RTP Internacional e RTP África.
O quarteto de trovadores aposta continuadamente em combater a fragilidade do género, assumindo-se hoje em dia como representantes de topo desta figura colectiva da dicção. Dizendo poesia e a prosa em grupo, acreditando que a utopia continua a fazer sentido.

Café Império (informações e reservas): 212471765 / 919029012
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segunda-feira, janeiro 21

A Peça Que Faltava



Depois de 'trancar' em definitivo o meu blogue "Paixão Extra", para que os poemas inéditos passassem a ser acedidos apenas pelos compradores do meu livro, sentia falta de uma presença mais genérica na internet, a propósito deste meu trabalho.

Finalmente, ela aí está, com os materiais de imprensa, a dedicatória à Sofia, alguns poemas já publicados em papel, citações de Mafalda Arnauth, Carlos Pinto Coelho, Irene Cruz e Paulo Nery, fotos do lançamento e (brevemente) recortes de imprensa.
Para visitar em http://batalhadapaixao.blogspot.com/.
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Entretanto, a todos os leitores registados do restrito "Paixão Extra", fica o alerta para a inserção de um "novo inédito": Fado Para Corações Perdidos.
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terça-feira, novembro 27

Jograis U...Tópico no Café Império



Comemorando nove anos de actividade, o Grupo de Jograis "U…Tópico" leva a cabo esta quarta-feira, 28 de Novembro, um jantar poético no Café Império, espaço histórico da boémia e cultura lisboetas que voltou, em boa hora, a acolher as noites de tertúlia.

O recital terá início pelas 21h30, precedido de jantar que começará a ser servido pelas 20h. Para esta noite especial, o Grupo de Jograis "U…Tópico" preparou um programa de alinhamento inédito, no qual "fugirá aos clássicos" e dirá obras de cerca de uma vintena de poetas portugueses contemporâneos. Tenho a sorte e a honra de ter sido escolhido como um deles.
Este programa especial liga-se assim ao objectivo principal da formação: promover, divulgar e mostrar os poetas e prosadores de Portugal e da Lusofonia e, consequentemente, defender a Língua Portuguesa. Fundado em Novembro de 1998, o Grupo de Jograis "U...Tópico" é actualmente constituído por quatro elementos: Maria de Fátima, Maria Luísa, António Freire e Manuel Diogo.
No seu reportório, figuram já cerca de 300 autores, envolvendo mais de 1500 textos (perto de 200 prosas - entre contos, crónicas, excertos de romances - e o restante em poesia) trabalhados para as vozes do grupo.
Ao longo dos últimos anos, o Grupo de Jograis "U...Tópico" promoveu já inúmeros recitais em diversas Instituições (Sociedades, Associações, Casas Regionais, Bibliotecas, Clubes, Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais, Livrarias, Grupos Culturais, Tertúlias de Poesia, Teatros, Cafés Literários etc.), e dezenas de Escolas Básicas e Secundárias. Teve também recitais gravados para a RTP2, RTP Internacional e RTP África.

O quarteto de trovadores aposta continuadamente em combater a fragilidade do género, assumindo-se hoje em dia como representantes de topo desta figura colectiva da dicção. Dizendo poesia e a prosa em grupo, acreditando que a utopia continua a fazer sentido.
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quarta-feira, outubro 31

Poesias



A partir de hoje, o grupo de jograis "U... Tópico" retoma a sua actividade nas últimas quartas-feiras de cada mês, ao Café Império, em Lisboa. Desta vez, a actuação dos quatro trovadores será subordinada ao tema "Poesia no Feminino", com obras de algumas das maiores e mais consagradas poetisas da língua portuguesa. Para conferir pelas 21h30, após o jantar que terá início às 20h00.
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segunda-feira, dezembro 25

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros, coitadinhos. Nos que padecem.
De lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra (louvado seja o Senhor!) o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:

Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!

E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão, in "Máquina de Fogo", 1961

sexta-feira, dezembro 8

Alianças


Almada Negreiros

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PASTELARIA
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício.
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente!
Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.


Mário Cesariny, "Nobilíssima Visão" (1945-1946) in burlescas, teóricas e sentimentais (1972


"Remember, remember, the fifth of November..."